A carne negra é a mais barata do mercado.

Eu tenho sangue de preto.

Eu tenho sangue de gente que teve o seu sangue tirado a base de açoites.

Eu tenho sangue de gente que teve suas costas feridas com urina e chicotadas.

Eu tenho sangue das mulheres que viviam nas cozinhas sujas e escondidas, eu tenho sangue das mulheres usadas e abusadas por aqueles que se auto denominavam seus senhores.

Eu tenho sangue de um povo que carregou com as próprias mãos pedras e mais pedras, para construir as suas próprias prisões, moradas dos seus próprios gritos e pesares.

Eu tenho sangue de gente que apanhou em praça pública, num tronco com as pernas e pés amarrados.

Eu tenho sangue de pessoas que tiveram as suas canelas marcadas com grilhões.

Eu tenho sangue preto.

Eu carrego na alma todas as marcas que os meus ancestrais carregaram no corpo.

O choro do meu povo negro.

O preconceito que se enraizou na minha, na deles, nossa existência.

A penitência de uma vida marcada pela cruel sentença de ter a sua existência tal qual a de um animal. Com marcas de algum brasão real cravadas em sua pele, como um gado é marcado pelo seu dono.

Tiraram do meu povo o seu caráter humano.

Tiraram do meu povo a sua cultura.

A sua religião.

Não tinham nada.

Não eram nada.

E a história continua a tentar de novo nos reduzir novamente. A nada.

A história não é lembrada.

A colonização é vista como um avanço necessário.

Vidas negras foram sacrificadas, mas de nada importa, já que hoje em dia nós temos tantas tecnologias e avanços.

Que matem os selvagens se o preço para o avanço for esse.

Que escravizem !

Que matem !

Porém não parem !

Porque eu ouço a voz do avanço e sacrifícios são necessários para que ele chegue mais rápido.

Esqueçam as vidas negras.

Elas não importam.

Batam continência para os colonizadores brancos e agradeçam por eles terem compartilhado um pouco da sua civilização com nós descendentes de animais, mais especificamente de macacos.

E viva a Europa, e viva a gente branca, hoje em dia viva também aos Estados Unidos, uma colônia que ao contrário do Brasil não fica olhando para trás e lembrando de uma meia dúzia de negros que sofreram um pouquinho, vamos ser iguais a eles e sair cantando o hino do Brasil no dia 7 de setembro, sejamos mais patriotas, essa historinha de escravidão já deu !

A história do sofrimento negro não importa, vidas negras não tem valor, o avanço tão estimado nessa situação nada mudou, a carne negra continua a ser a mais barata do mercado …

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.