Isolamento social aos olhos de uma mulher preta !

Em tempos de pandemia muitas pessoas experimentam a solidão. Sozinhos em suas casas, experimentam o vazio que até então desconheciam e clamam para que o isolamento acabe, pois em alguns meses já não aguentam mais.

Olhar para o isolamento social me fez refletir sobre o isolamento que venho enfrentando há anos, imagina viver uma vida inteira relegado ao limbo, ao elevador de serviço, a pobreza e a indignidade? Imagina passar a vida inteira isolado socialmente porque a sua cor de pele te destinou a esse lugar de não ser?

O mundo agora está um caos, muitas pessoas dizem estão mal e é natural, é uma situação que mexe com todos, porém eu vivo uma outra espécie de isolamento desde o dia em que nasci.

O momento em que nós vivemos é crítico, mas o meu povo continua morrendo nas mãos dos policiais, continua trabalhando e arriscando as suas vidas, pois nem o direito a pensar na nossa saúde nós temos, viver o isolamento social, tal qual nos é mostrado atualmente, está sendo um privilégio e o que queremos dizer é que não deveria ser assim.

Minha vida não é feita de tristezas e eu não sou uma mulher agressiva, mas tive que endurecer pois a vida não foi fácil, eu precisei cuidar de mim, pois pessoas como eu precisam ser fortes. Eu falo das minhas feridas, pois em tempos de caos elas costumam sangrar mais, eu carrego comigo a força de todos que já foram e ainda virão e todas as suas alegrias me contagiam, meu povo resiste e me faz resistir, mas precisamos de um lugar onde só possamos existir.

Sou uma mulher negra e a solidão que em mim habita não é apenas causada por não poder ver as pessoas que amo, é um processo cansativo viver em um sistema racista que nos impele a lutar pela vida, pelo afeto, pelo amor.

Me sinto sozinha por sentir que não mereço amor, me ensinaram que a minha cor era sinônimo de sofrimento, de vergonha, de rejeição e que não tinha nada de bom em ser quem eu era, que mulheres como eu só serviam para duas coisas …

Para cama ou para cozinha.

Só serviam para servir.

A mulata com curvas fartas, não é digna de cartas de amor, de carinho de respeito ou de um buquê de flor. A preta retinta não é feita para ser doutora, que arranjem panelas porque a cozinha é o seu lugar.

Me sentir isolada e sozinha sempre fez parte da minha vida, mas isso não torna mais fácil conviver com mais esse isolamento.

Não está fácil ver pessoas que também passaram pelo mesmo processo de isolamento e solidão morrendo pela violência que sempre nos fez vítima. Meu coração se entristece por não poder apenas vivenciar a dor e a solidão do isolamento social, eu sinto o isolamento de uma outra maneira, pois em mim ele possui outros significados.

Experienciar a dor e o sofrimento apenas agora é algo que diz muito sobre o lugar onde você se encontra, eu sinto muito pela sua dor, mas entenda, eu venho sentindo dores tão profundas, entrando em contato com a morte de tantas formas diferentes, que me dói o impacto da pandemia, mas me dói em dobro, pois o medo de perder a vida só ganhou mais uma ameaça, e nós já lidamos com muitas delas há muito tempo.

Nós morremos todos os dias, e somos corpos, números nas estáticas, que não incomodam grande parte da população, mas nossas vidas importam, e queremos ter direito a poder sentir, pois até isso nos foi negado. A vida me obrigou a ser forte, por isso estou ainda de pé, mas a vida me tirou a oportunidade de ser vulnerável e a chance de me sentir merecedora de cuidado, a chance de uma vez poder ser fraca, e viver sem constantemente me preocupar com a iminência da morte.

A vida exigiu de mim uma força que eu nem sabia que tinha, e em meio ao desatino de continuar viva eu continuo resistindo e acreditando que um dia serei capaz de construir em mim, para mim e para todas as minhas irmãs um lugar de paz e afeto, um lugar onde possamos …

Não mais sobreviver, mais conseguir enfim, Viver!

Um lugar onde possamos emanar a nossa alegria de viver, onde possamos levar nossos saberes, nossa arte, nossas vivências, sem precisar voltar a esse lugar de tanto sofrimento. Esse é o grito pela nossa vida e liberdade irmãs, que acabem todos os tipos de isolamento social para nós, que possamos alcançar o tão sonhado bem viver.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.