Segurem as minhas mãos irmãs e ouçam comigo o canto da revolução, a plenos pulmões ouvimos as vozes de nossas ancestrais, destinadas a cozinha, aos filhos, ao trabalho domestico, a uma vida de servidão, de abusos e de silêncios, mas que com suas vidas nos deram a oportunidade de hoje poder lutar.

Ouçam a voz de todas elas, mulheres negras que lidaram com o estigma do racismo, com uma sociedade que as reduziu a amas de leite, a mulatas feitas para satisfazer desejos de um dito senhor, a mulheres que não precisaram lutar para trabalhar, já que mais do que todas a servidão era o seu lugar, a não humana que luta para ser respeitada em atividades coloquiais, e que possui duas vezes a dor de ter que sempre lutar.

Ouçam a sua voz que mesmo muito silenciada ainda ecoa, sintam a força dos orixás, sintam a resistência e cantem para mostrar que a senzala não é e nunca foi nosso lugar.

Sigam o canto da mulher liberta do racismo de pele branca, mas que sofreu por ser designada como um ser inferior que precisava manter a casa em ordem, para que o provedor pudesse cuidar do lar, também silenciada, mesmo sem o peso da chibata, mas que das mãos do dedicado marido também apanhava.

Ouçam o canto das mulheres que nasceram em um corpo que não era seu, que sofreram por não se reconhecerem quando se olhavam no espelho e que mais tardiamente sofreriam duplamente por se colocar nesse lugar de menos privilégio.

Mulheres que não possuem uma vagina mas que sofrem por possuírem uma identidade feminina, e ainda por cima uma identidade feminina que transgride, que ofende o padrão da mulher de traços delicados, imaculada, bem cuidada, calada, que sabe se comportar, criada no imaginário masculino para aprisionar a mulher real, a mulher forte que desde o princípio lutou e que hoje canta dentro de nós.

Me deem as mãos minhas irmãs e vamos juntas continuar a resistir, o nosso lugar será determinado pela nossa vontade, os nossos corpos serão nossos e com eles faremos o que quiser, sem nos preocupar com o olhar que insiste em usar a nossa liberdade para nos sexualizar.

As barreiras impostas pela sociedade que me delega como puta, desbocada, chata, mal educada, mulher macho ou seja lá como querem me chamar, serão transpostas pela minha vontade de fazer em mim o grito de revolução ascender, com a força das bruxas eu as invoco, para que todos nos possam dar mais que flores e sim o direito de viver em paz, sendo a mulher que escolhemos ser, sem só por isso ser destinadas a morrer …

Vamos lá minhas imãs me deem as mãos !

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.