Não preciso que alguém me diga que vai ficar tudo bem.

Não preciso que me lembrem tudo aquilo que tenho e pelo que eu preciso ser grata.

Não preciso que tentem a todo custo me fazer sorrir.

Eu preciso de um ombro para chorar.

Preciso de silêncio e colo.

Preciso não achar que estou sendo julgada por sentir o que sinto.

Preciso que me digam que está tudo bem ficar mal.

Que tudo bem ter um ou dois dias ruins.

E que entendam que nesse momento nada pode me ajudar, mas mesmo assim é bom ouvir que eu não estou sozinha e que tenho com quem contar.

Eu me conheço e sei que quando a dor bate na porta, eu preciso abrir e a deixar entrar.

Não posso adiar o sofrimento.

Não posso guardar tudo aqui dentro.

Preciso deixar que as lágrimas inundem tudo ao meu redor, para que depois eu não seja sufocada pelo peso delas dentro do meu corpo.

Eu preciso de alguém que não tente silenciar os meus soluços, de alguém que consiga ficar me meus piores dias, e que não se importe em se molhar um pouco no meu pranto.

Sempre busquei companhias que afastassem a sensação de fugacidade da vida, pois sempre lutei contra uma enorme solidão que apertava o meu peito.

Por isso me entrego raramente.

Por isso amo tão intensamente.

Por isso tento ser sempre verdadeira e tento dar tudo em qualquer relação.

E é por isso também que me decepciono na mesma proporção.

Não sei sentir pouco, não sei anestesiar minhas emoções e nem conter meus pensamentos, sempre odiei situações mal resolvidas, porém vivo imersa constantemente nelas.

Nunca entendi se minhas expectativas eram altas demais, ou se me contentava com o mínimo.

Não fui ensinada a me amar.

Não fui ensinada a lutar por mim.

Tudo que aprendi era voltado para o outro, o resultado disso é hoje me sentir culpada por ficar triste, aparentemente, em uma hora inadequada.

Mas preciso mudar.

Desculpa, mas hoje eu não vou me desculpar.

Não vou pedir desculpas por sentir demais.

Não vou pedir desculpas por lutar pelo direito de viver a minha dor.

Não vou abrir mão do meu tempo de cura.

E acima de tudo, não vou me calar ou fingir estar bem para não incomodar.

O lugar de amor e carinho que sempre busquei, a gentileza que nunca encontrei, irei criar tudo isso dentro de mim.

Aprender a aceitar apenas aquilo que mereço, tendo plena consciência que erro e não sou perfeita, mas que também não preciso a todo instante abaixar a cabeça e me desculpar.

Hoje não!

Chega de culpa!

Chega de ser tão dura comigo.

Vou me permitir ser frágil.

Vou me permitir tirar um tempo para mergulhar e focar apenas no que sinto.

Vou canalizar todas as minhas energias para utilizá-la na busca do cuidado para com minhas novas feridas.

Vou me dar permissão, para quem sabe ser um pouco egoísta, e olhar o meu lado, apenas o meu lado.

Eu preciso de colo e de compreensão, e é exatamente isso o que hoje eu vou me proporcionar.

Não existe aqui espaço para culpa ou desculpas.

Hoje é dia de dar as mãos para dor

Hoje é dia de perdoar a si mesma.

E de entender que a felicidade vitalícia que nos é vendida é falsa.

Que o que você está sentido agora não é errado.

Você só está vivenciando a sua humanidade.

Existe uma força enorme naqueles que optam por encarar de frente o sofrimento.

Então se agarre a essa força e saiba, não existe motivo para se desculpar.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.