Minhas paixões #2

O ponto inicial de toda a minha história é a criatividade. Inventar novas formas de ver o mundo, criar meus próprios mundos ou simplesmente transformar algo corriqueiro em algo único e completamente novo. Eu sempre admirei pessoas criativas e para mim essa sempre foi a minha principal qualidade.

Sempre me senti poderosa quando diante de uma tela ou de uma folha em branco eu conseguia fazer aparecer histórias, meus devaneios me lavando a dar vida ao inanimado, a colorir o que não tinha cor, é lindo quando consigo observar a concretização dos meus pensamentos e sentimentos e é mais lindo ainda quando percebo que aquilo faz sentido, meus devaneios possuem alguma linha lógica que leva a algum lugar, e eu sinto que esse lugar é mágico.Minha ligação com as palavras teve forte influência para que eu pudesse conhecer outros tipos de arte.

Quando eu ia ao cinema o que mais me chamava atenção nos filmes obviamente eram os roteiros, as histórias, a construção de todo um universo que era capaz de despertar sentimentos e uma identificação única em quem assistia, sempre me deixou extasiada essa ligação do real com o imaginário, e o imaginário sendo capaz de fazer brotar o choro, a risada, no mundo real, em pessoas reais, essa dinâmica do que o imaginário, do que o lúdico poderiam despertar, me fez ter uma forte ânsia em ser capaz de proporcionar o mesmo. E aqui está o que me faz ser apaixonada pela arte em todas as suas formas.

O filme não é composto apenas por um roteiro, para a história ser contada ela precisa de um cenário, ela precisa de um figurino, de uma trilha sonora, precisa da fotografia correta e inúmeras outras coisas que meu status de apenas apreciadora não me deixará citar, mas o fato é que para o filme chegar no seu produto final e fazer emoções serem despertadas, ele precisa que diversos tipos de arte estejam envolvidos, a consonância entre eles é o que faz do filme uma incrível maquina de tocar a alma humana.

Eu sinto que a arte é extremamente necessária e sinto o quão as pessoas tem uma visão limitada sobre o que é de fato arte ou são privadas de ter um contato mais intimo com ela. Não se pode falar de arte sem pontuar como a realidade nos distância da mesma, querer que alguém que trabalha o dia inteiro e tem rotina, dupla, as vezes tripla e que se vira no final do mês para conseguir fechar as contas seja um conhecedor da importância da arte chega a ser cruel.

O conceito de arte ainda é usado para segregar, para de fato não permitir que a grande população tenha acesso a ela. E assim ocorre o distanciamento com quem mais precisava de um sopro de arte na sua vida, de momentos que fizessem a realidade parecer mais leve, desse êxtase da alma, desse alivio no coração. Isso pode ser a base que sustenta a sanidade e privar pessoas disso é uma forma de violência.

A arte é também uma forma de experienciar o amor, sendo assim ela não precisa ser algo incompreensivo, complicado, que precise de horas para que se consiga entender a mensagem que se esconde por detrás dela, onde poucos conseguirão chegar. A arte tem como seu foco principal, na minha leiga opinião, apaixonar pessoas, e paixão não é explicada, é compreendida através de sentimentos, de sensações, arte é conexão.

E essa conexão só pode ser sentida em um lugar que toca o que naquela obra se parece com você, o problema do trabalhador que não reconhece a importância de um trabalho artístico reside no largo rio que separa a obra da sua vida, quando a arte fala sobre ele, a importância é sentida, nós somos seres carentes de identificação e grande parte da população teve o seu caráter humano negado a vida inteira, inclusive quando o assunto é sobre pra quem os grandes artistas produzem e já produziram.

A arte é dia a dia, arte não deve criar abismos e sim ser capaz de construir pontes, eu sei que dói ter o valor do que você faz diminuído e eu sei o quanto dói ser apaixonado por arte sem ter um real no bolso, a arte me abriu as portas de um mundo novo e belo, mas eu sinto na pele como ela pode ser limitante.

Se nós queremos que as pessoas parem de dizer que arte não é trabalho, que arte é coisa de vagabundo, temos também que fazer da arte parte da vida das pessoas, é importante saber de onde os discursos são proferidos, em que contexto eles foram ditos e tentar mudar quando o que acontece ali é falta de conhecimento ou oportunidade de conhecer , e não um preconceito infundado baseado na falsa crença de que só é valido o que é “produtivo”.

Quando se quebra barreiras, quando ocorre a democratização do acesso a arte e é possível finalmente reconhecer seu valor, a arte toca, emociona e é capaz de mudar a vida.

A possibilidade de criação, de eternização ou de dar luz a novos significados dos acontecimentos e momentos vivenciados ao longo da nossa história, é o que a arte me trouxe desde minha infância, as pessoas dizem que meu lado emocional fala mais alto do que o meu lado racional, e isso mostra o quão a paixão é o que me faz ainda estar viva.

Para mim a vida ganha um sentido novo e todo especial quando se é enxergada através das lentes de quem vê a vida como se aprecia uma obra de arte.

A arte te impele a ser inteiro, ela te pega de jeito e faz você se entregar, a arte exige intensidade, exige autenticidade e um toque de loucura, a arte te tira do eixo para colocar algo completamente inesperado no lugar.

A arte é mágica, é cor em dias cinzas, a arte é o que contorna os traços brutos da vida, a arte pode ser um capricho da alma, mas ela nunca será algo sem valor, ela é necessária, e com o oxigênio que entra em meus pulmões também entra a arte, eu a respiro e faço dela bem mais que um capricho, a arte tem a minha alma por inteiro para si.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.