Mulher, quem é dono do teu corpo ?

Eu lembro do meu aniversário de 5 anos de idade, lembro do “com quem será”e lembro também que eu não queria me casar com o Joãozinho, eu só queria brincar.

Eu lembro que via as propagandas de dia das mães, falando desse dom natural que nasce dentro de qualquer mulher e eu no auge da minha experiência, agora aos meus 10 anos, não tinha certeza se no meu futuro iria querer ser mãe.

E lembro que aos meus 12 eu menstruei e virei “mocinha” e virar mocinha trouxe mudanças no meu corpo, eu lembro que junto com o virar mocinha vieram os sutiãs, o senta direito e também os olhares dos homens na rua.

Muito cedo eu fui ensinada que meu corpo não era meu, eu fui programada para gerar um filho, eu fui programada para ser desejada e dar prazer para um homem, eu fui programada para ser mãe e mulher de alguém, mulher de alguém, mãe de alguém e nunca em hipótese alguma eu poderia ser mulher para mim.

Lembro de quando comecei mais tarde a tocar meu corpo e de como nenhuma das minhas amigas fazia o mesmo, lembro que senti culpa, vergonha, mas também lembro de como ninguém julgava os meninos que tão cedo já viam pornografia.

Lembro de ouvir muito aquela frase “ segurem suas cabras que meu bode tá solto” e de como era o papel da menina ser apenas o alvo do desejo de um menino qualquer.

Eu lembro também quando minhas amigas começaram a brigar por meninos e de como eu via ali nascer a rivalidade feminina, todas nós brigando pelo cara mais bonitinho da sala, que não estava nem aí pra nenhuma de nós.

Eu lembro quando a Mariana brigou com a Verônica, porque seu namorado o Carlinhos, olhou pra bunda dela e me lembro, agora com os meus 15 anos, de não entender porque a Verônica era a vilã da estória, se era o Carlinhos quem não sabia respeitar nenhuma mulher.

Eu lembro também quando as cobranças começaram, você tem 17 anos e nunca namorou ? Ainda é virgem ? Eeee deve ser sapatão !

Lembro que minha sexualidade foi assunto dá roda de conversas dos meus amigos, como se o fato de eu não ter transado com ninguém aos 17 anos definisse por quem eu me sentia atraída ou não.

E lembro mais ainda do jeito perjorativo como tudo era colocado, mas não entendia porque também julgavam as meninas que davam para quem elas quisessem dar, acho que ali eu percebi que não importava o que eu fizesse eu sempre seria julgada só por ser mulher.

E foi aí também que eu entendi que o que estava em questão era o fato de eu demonstrar liberdade e controle sobre o meu corpo por ter resistido as cantadas dos meninos que me queriam e a liberdade da menina que decidiu que faria e deixaria entrar no seu corpo quem ela bem entendesse sem se preocupar com o que os outros achavam certo ou errado, os nossos corpos estavam passando a mensagem errada, eles aparentemente eram nossos e isso era inadmissível, o corpo de uma mulher não pode ser seu !

Depois a minha lembrança mais forte foi quando finalmente deixei um homem me tocar e apesar de ter resistido por tanto tempo eu cedi a pressão e fiquei não com quem realmente queria, mas com o primeiro que me quis pois estava cansada da lutar para afirmar que meu corpo pertencia somente a mim.

Esse dia foi triste, não tenho uma lembrança boa, eu fiz o que fiz por motivos errados, deixei para trás tudo que eu acreditava e fiquei com um cara que assim como eu cresceu ouvindo tudo que eu ouvi, porém ele estava do outro lado da estória, ele cresceu ouvindo que as mulheres tinham que lhe servir, que os seus corpos pertenciam a ele, ele construiu a sua sexualidade baseado em filme pornô e me tratou como um mero objeto para sua satisfação sexual, o meu prazer foi deixado de lado e só o que ele sabia e o que ele esperava era meter cada vez mais forte e ouvir os meus gemidos cada vez mais altos, foi aí que eu aprendi a fingir , fingir orgasmos, fingir prazer, mas tarde até fingir sentimentos.

Naquele momento eu perdi a primeira luta pelo controle do meu corpo.

E aquela só era a primeira luta de muitas.

Essa experiência me fez aprender da pior maneira que não era aquilo que eu queria para mim, por um tempo eu até continuei reproduzindo tudo o que havia aprendido, porque era difícil lutar sem ter voz, eu estava tentando lutar pelo direito de ser dona do meu corpo e aquilo não fazia o menor sentido, eu estava triste, desmotivada e por um tempo aceitei que meu corpo não pertencia a mim.

Até que outra lembrança me marcou agora aos meus 20 anos eu presenciei um homem falando sobre a legalização do aborto e aí mais uma vez a força de lutar ressurgiu, eu lembrei de todas as minhas experiências, de todos os caras que se achavam donos do meu corpo, eu vi naquele homem que dizia ser um absurdo abortar uma vida, a figura de toda a opressão que toda a minha vida eu sofri. Um aborto é um absurdo, mas um cara que se acha no direito de opinar sobre o que uma mulher pode fazer com o seu corpo não é ? Aborto é um absurdo, mas um cara abandonar os seus filhos não é ? Aborto é um absurdo, mas falar que uma mulher merecia ser abusada porque estava usando um short curto não é ?

Em que mundo nós estamos vivendo ? Controlam com quem nos relacionamos ! Controlam como devemos nos vestir ! Controlam se devemos usar nosso corpo para dar a luz ou não ! Controlam absolutamente tudo e a nossa opinião sobre o que queremos para nós nunca é ouvida !

Mulher, ninguém é dono do seu corpo, seu corpo é livre e se ele tiver que pertencer a alguém é a você , eu sei que é difícil lutar, mas as minhas experiências me mostraram que me calar é bem pior, nossos corpos são nossos e de mais ninguém, então grite para quem quiser e também para quem não quiser ouvir

Meu corpo é livre e se ele tiver que pertencer a alguém é somente a mim !

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.