O que fica depois do último Adeus ?

Quem nunca ouviu aquela pergunta “ O que você faria se hoje fosse o seu último dia de vida ?” , aí nós falamos e no final temos uma lição sobre a aproveitar o hoje, porque o amanhã pode nem sequer existir.

E realmente nós não sabemos a hora que vamos partir, mas isso não torna mais fácil simplesmente viver tudo aquilo que nós queremos viver, nós adiamos ao máximo a conversa com a morte, o encontro com ela, não falamos do fim, a morte é um caminho desconhecido que geralmente causa medo.

O que acontece é que nós não aproveitamos nossos dias como se fossem os últimos, porque não estamos sentenciados a morte, sempre acreditamos que ela é uma amiga distante e que um dia talvez vá se esquecer de nós.

Pra além desse sentimento ainda existem as demandas da vida cotidiana, nem sempre estamos bem pra aproveitar, em alguns dias não conseguimos fazer absolutamente nada ou temos que fazer tudo, mas nada que faça sentido pra coroar nosso último dia de vida.

A realidade é que praticamente ninguém faz do seu último dia algo marcante, quando eu passei pelo meu primeiro processo de luto saí procurando palestras sobre o assunto no YouTube, esbarrei em um vídeo e ouvi a seguinte frase “ Achamos que a primeira impressão é a que fica, até que chega a morte e percebemos que na verdade, o que fica é a última”

Eu fiquei com essa frase na cabeça, tentei me agarrar ao máximo aos últimos momentos que tive com aqueles que amei e não estavam mais aqui, e o que percebi é que os últimos momentos não foram marcantes, porque nem eles e nem eu achávamos que seria o Último dia, a Última impressão, a Última frase.

Eles passaram os dias como passavam todos, pois a morte não era esperada, foi aí que eu entendi que a primeira impressão não é realmente a que fica, mas a última segue o mesmo caminho, porque o que de fato faz marca, são todas as impressões, não apenas a última ou a primeira. Nós nos agarramos a todas as memórias e na maioria das vezes as memórias dos momentos mais simples.

Eu entendi que não existe um grande dia que você vá passar do lado de quem ama e vai ficar para história, porque tudo o que você passa do lado dela ficará marcado, não são os grandes acontecimentos que ficam, são as pequenas coisas,os pequenos detalhes, um dia como qualquer outro em que você passou horas conversando com o outro e sem querer absorvendo cada detalhe dela e guardando na memória.

O que fica é um passeio inesperado à praia em um dia de chuva, onde tinha tudo pra dar errado, mas não deu. É um passeio de família atípico, onde todos estão presentes. São os aniversários surpresa, é o som da risada, é o som do arrastar dos pés, são as conversas despreocupadas, são aqueles dias em que acreditávamos lá no fundo que somos eternos e onde acreditamos nos dar conta despistar o fim.

Quando eu percebi que não havia como viver como se fosse o último dia, que não havia como tentar fazer dos últimos momentos os mais especiais, eu passei a dar mais valor aquilo que antes eu nem prestava atenção e ainda existe dias em que eu esqueço e que seriam péssimos para últimos dias, mas no final eu sei que os dias em que eu me senti eterna podem compensar.

A vida realmente é um sopro, e o clichê realmente está certo, nós temos que viver enquanto podemos, mas é bom saber que no final não precisamos de muito, porque o que faz marca não são os grandes feitos, mas sim o que você fez quando mais nada importava e você se deixou levar pela simplicidade de fazer o que gostava com aqueles a quem o destino lhe permitiu amar. Então viva e tente perceber os detalhes, pois são eles que vão te consolar nos dias em que a saudade mais apertar …

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.