A construção da minha identidade e os “ismos” que atravessam a minha história.

Minha história é atravessada por uma série de “ismos”, o que me fez ter que lidar desde muito cedo com algumas violências . Por muito tempo eu acreditei que a primeira violência sofrida por mim se devia ao fato de eu ser mulher.

Escrevi textos, estudei sobre o feminismo, mas eu sentia que faltava algo para explicar o porquê dessas minhas vivências violentas.

Esse algo que faltava foi silenciado por mim, foi uma parte apagada da minha história, porque o tipo de “ismo” que eu não conseguia enxergar, era palavra proibida, era feio e era muito errado acusar as pessoas de o praticarem, mesmo que você estivesse sofrendo na pele por ele.

Esse “ismo” tinha como uma das suas principais violências a desumanização e o apagamento da história daqueles que sofriam as suas opressões, não podemos falar de racismo, pois estamos nos vitimizando ou sendo injustos com os pobres brancos que nem sabem que são racistas.

Mas tudo bem se nós sofremos, tudo bem se somos humilhados e tratados como animais de circo. O importante é não causar um fuzuê, e se comportar direitinho, porque assim, talvez, nós sejamos “aceitos”. Pretos calados e sem consciência de raça, são ótimos, o importante é não incomodar.

Após começar a tomar consciência do racismo que sofria, eu percebi que quando eu andava na rua aos 9 anos e todos os homens com idade para serem tranquilamente,meu avô ou o meu pai, “elogiavam” o meu corpo, eu não estava passando por aquilo apenas por ser mulher, ali eu era uma mulher, no caso uma menina, mas também era negra, e ali eu estava sendo sexualizada pelos dois “ismos” que na época me atravessavam. O racismo e o machismo, em uma intersecção, aqui, extremamente cruel.

Me entender enquanto mulher negra foi um processo tardio, mas o racismo sempre esteve presente na minha vida, eu acabei o naturalizando.

Entrar em lojas com a minha mãe e ser completamente ignorada, sair para as compras com a minha família e ser seguida pelos seguranças, para mim era o que deveria acontecer, era “normal”, porque as pessoas que tinham o mesmo tom de pele que o meu, eram tratadas assim, era o que eu via, o que vi minha mãe passando desde que comecei a vida, e era o que mais tarde eu também sabia que ia passar.

Entender depois de um tempo o quanto era violento pensar daquela forma, foi difícil, mas me ajudou a compreender a origem do esteriótipo de mulher gostosa, que eu carregava aos 9 anos de idade. Abri os meus olhos e percebi como o fato de eu ser uma mulher negra me fez passar pelo que passei, a importância do fator raça nessa violência por mim sofrida.

Busquei a fundo de onde provinham os esteriótipos que recaiam em mulheres como eu. Descobri, então que existem dois grandes esteriótipos da mulher negra. A mulher de pele mais escura, destinada a cozinha, ao trabalho servil e a mulher de pele mais clara, destina a cama.

O lugar de servidão faz dessa mulher de pele mais escura, apenas um objeto de trabalho, ela não tem alma, não tem sentimentos, não é digna de amor, não é humana, sua única função é servir.

A mulher de pele mais clara é um objeto sexual, também sem alma, também não sendo digna de amor, ela é a mulher gostosa, boa de cama, sua única função é dar prazer.

Esse segundo esteriótipo é fruto de um processo de miscigenação, baseado em relações não consentidas entre negras e homens brancos, para assim embranquecer a população.

Desse processo de embraquecimento, surge a mulher mulata, a mulher que servia para se deitar com os senhores, quando as mulas não estavam disponíveis, eis aqui a origem do termo.

O reflexo desses dois esteriótipos foi perpetuado ao longo dos anos, e hoje ainda influência em como mulheres negras são vistas, inclusive por elas mesmas.

Por muito tempo eu só conseguia ver beleza no meu corpo, quando eu era legitimada pelo outro, esse outro geralmente era um homem, e a construção da minha auto estima, era baseada no quanto aquele homem me achava gostosa.

Sem saber ao certo a origem daquele sentimento, eu investia pesado nas roupas curtas, nas fotos que exibissem o máximo de pele possível e torcia para receber elogios, eu não era a menina que recebia bilhetes e mensagens fofinhas de amor, eu não era a menina com quem alguém ia querer ter algo sério, eu não era digna de amor e admiração, eu era a mulata, a que serve para transar.

A construção da minha identidade foi atravessada por relações em sua maioria violentas, o que me fez criar uma personalidade extremamente submissa e que se relegava a tudo por o mínimo de afeto.

Entender a origem das marcas que hoje em dia carrego, me fez querer lutar pra que essa não fosse a regra, não é justo que uma menina antes de ter noção do que é raça ou gênero, já sofra as consequências do racismo e do machismo.

Para além de ser uma mulher negra, eu também sou bissexual , o que acarreta em mais um esteriótipo negativo que me coloca nesse papel da mulher promiscua, boa de cama, mais uma vez.

Romper com esses esteriótipos e ter orgulho do que eu sou me possibilita lutar contra as violências sofridas por mim, e me possibilita lutar contra o processo violento que eu estabeleci na relação com quem eu sou.

A rejeição do meu corpo negro, a rejeição da minha sexualidade, o desejo de não mais ser mulher para não conviver com o assédio, e no final o processo mais violento, achar de fato que eu merecia relações abusivas e aceitar o assédio como a única forma de atenção e relacionamento possível.

Os “ismos” que me transpassam fizeram a minha vida mais difícil, mas esses mesmos “ismos” não são o todo que compõem a minha identidade, o sofrimento existe, mas aqui hoje em dia reside um orgulho enorme de ser quem eu sou.

O entendimento sobre a sua identidade, te abre portas para saber pelo que lutar. E a luta possibilita que você enxergue que o problema nunca foi você, nunca foi a sua cor da pele, o seu gênero ou a sua sexualidade, o problema está na estrutura da sociedade e nas pessoas que a perpetuam.

Não é errado ser negro, ser mulher ou ser LGBT+, lógico que não, é errado ser racista, é errado ser machista, é errado ser LGBTFÓBICO, e é contra isso que devemos lutar, não contra nós mesmos.

Nós já fomos violados demais, chegou a hora de proclamar aos quatro cantos que não vamos mais nos submeter a nenhum tipo de violência, nós somos dignos de amor, somos dignos de respeito, e devemos ter orgulho da nossa história e identidade.

Minha história é atravessada por “ismos”, mas também é atravessada por luta, por resistência e orgulho. É a história daqueles que venceram as estatísticas, que permanecem vivos e permanecem ocupando espaços e brilhando, apesar de passarem a vida toda ouvido que aconteceria justamente o contrário, a minha história é também atravessada por uma extrema beleza, e é lindo hoje poder enxerga-lá.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.