Um espectro ronda os relacionamentos atuais e ele não é especificamente o espectro do comunismo, porém em certo ponto pode estar relacionado. O dilema vivenciado pelos casais reside na luta entre o sentimento de posse e a liberdade que ambos deveriam vivenciar.

Existem inúmeros discursos que afirmam que em uma relação onde há amor consequentemente haverá o ciúme e você obviamente só poderá ter ciúme daquilo que lhe pertence, minha mulher, meu homem, minha namorada, meu namorado, minha esposa ou meu marido, os adjetivos de posse, conscientemente ou não, sempre estão presentes nas nossas falas ao nos referimos à alguém com quem temos algum tipo de relação, meu objetivo não é condenar a língua portuguesa, longe de mim, mas sim levar a uma reflexão de como esse sentimento de posse está arraigado nos pequenos detalhes das nossas relações até nas suas nomenclaturas.

Para além dos pequenos detalhes é notável como sentimento de posse pode levar a extremos, como agressões em defesa do que é seu, ou até o ato de matar alguém supostamente em nome de um dito amor. Relações saudáveis aos olhos de muitos partem do princípio de cuidar do que é seu, e esse cuidado com seu patrimônio afetivo, se assim podemos dizer, é muitas vezes defendido com unhas e dentes, literalmente. Lute pelo seu amor, e não deixe que ninguém o tome de você, como zelamos com todo o fervor por nossos bens materiais que nos pertencem, devemos também fazer o mesmo com a pessoa amada e só assim seremos considerados bons companheiros, que de fato entenderam o conceito do que é ter uma relação de verdade.

Mas como apontei no início, existe sim uma contradição, um embate, que envolve também o conceito de liberdade em um relacionamento, existem alguns discursos indo contra a ideia de posse nas relações e refutando esse tipo de suposto relacionamento saudável, hoje ouvimos falar de relações não monogâmicas, de relacionamento aberto, e em alguns espaços tais conceitos são vistos com naturalidade e aceitação.

Estar em um relacionamento com alguém partindo dessa visão não estaria ligado ao ideal de ciúme, de briga e competição pelo amor, residiria justamente no contrário, o amor teria que vir acompanhado da individualidade de cada parte do casal, do respeito ao direito de liberdade de cada um e do entendimento que uma pessoa ao amar outra, diferente do que os filmes e contos de fadas nos ensinaram, não se torna parte integrante da outra, os dois não se tornam um só e ambos podem viver vidas separados possuindo pontos em comum e compartilhando momentos e até mesmo parte da sua vivência, mas nunca sendo a totalidade da vida do outro.

Chega a ser cruel imaginar que o amor é uma prisão, que ele irá limitar as suas experiências, suas possibilidades, seus desejos e até sonhos, que ele será baseado em uma eterna doação e renuncia sem fim, que no final deixará ambos condenados a uma eternidade de sofrimento, pois para sentir amor verdadeiro, necessariamente é preciso sentir toda a dor que ser parte de alguém pode lhe causar.

O entendimento dessas duas visões antagônicas sobre o amor nos leva a reflexões que vão além de simplesmente fazer pensar sobre como escolhemos amar. Crescemos ouvindo histórias onde os personagens principais morrem por amor, e na realidade realmente é possível acreditar que nesse sacrifício final resida a força de amar alguém, é importante nos questionarmos porque associamos um sentimento como o amor a algo que inevitavelmente precisa machucar, doer, ferir e possuir um final trágico.

Precisamos repensar a forma como nos relacionamos para entendermos o que isso diz sobre nós, enquanto seres individuais e também sociais, pregar que eu devo doar a minha vida e perder tudo que tenho para ver alguém feliz não é saudável, amor envolve querer ver o outro feliz mesmo que você não faça parte de tal felicidade e é esse tipo de altruísmo que eu aplaudo de pé, amor é ir embora quando você ainda ama, mas sabe que se ficar vai acabar se machucando ou machucando ao outro, amor tem a haver com deixar ir e se permitir ir, partindo do pressuposto que a sua existência e do outro são maiores e mais importantes do que um relacionamento que sobrevive a base aparelhos, porque já acabou a muito tempo, mas algo o impede de ver.

Eu peço que reflita sobre o modo como você ama e se deixa ser amado e faça uma limpa em todos relacionamentos que te sugam, que te fazem mal e que te machucam, pense se é ali que você realmente quer estar, e esteja atento pois é muito fácil cair na armadilha de confundir posse com o ato de amar, entenda que é possível cultivar um sentimento intenso e ainda assim dormir tranquila, entenda que é possível pensar em outros tipos de relações que não envolvam a necessidade eterna de ciúmes, e que sim, é possível amar de maneira saudável e tranquila, amor não machuca e se te faz mal está na hora de considerar que talvez o que você sente pode não ser de fato amor.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.