Quando eu tinha meus 5 anos meus pais decidiram que meu cabelo tinha volume demais e juntos concordaram em me levar ao salão.

Passei por um processo doloroso que durou um dia inteiro, o cheiro do produto de alisar o cabelo, o quanto aquilo ardia na minha cabeça, depois o calor do secador e da chapinha, eu lembro como se fosse hoje, e lembro das minhas lágrimas quando me olhava no espelho e via que meu cabelo já não estava mais ali.

Eu era muito nova para ter voz, mas isso perdurou por longos anos e mesmo quando eu já podia falar e lutar por quem eu era, me convenceram que eu era feia, que meu cabelo era inadequado e que eu devia ser igual as minhas amigas brancas de cabelos lisos e loiros.

Eu precisava deixar para trás o meu cabelo natural para ser bela e aceita, precisava sofrer por horas em um salão e rejeitar completamente quem eu era, porque eu precisa urgentemente me encaixar em um padrão, para assim finalmente ser um pouco mais “normal”.

Meus pais na época não entendiam, os amiguinhos que zombavam dos meus cabelos só reproduziam o que todos os dias eles ouviam em casa, na televisão e mais tarde na internet , mas apesar de a culpa não ser completamente deles, de a culpa residir no racismo estrutural que tenta apagar qualquer traço que nos lembre das nossas raízes africanas, o que eles fizeram comigo foi cruel, foi um processo violento que me fez carregar marcas pra vida toda.

Eu cresci acreditando que devia mudar pra ter o mínimo de respeito e admiração, cresci acreditando que meu eu natural era monstruoso, e cresci sem referências positivas sobre quem eu era e quem eu poderia ser, por isso hoje faço questão de enaltecer a beleza dos meus cabelos. Fico feliz quando vejo surgir marcas para o cuidado com os cabelos crespos e cacheados e quando vejo que hoje em dia não é mais tão anormal ver uma atriz, uma cantora, que mantenha a forma natural dos seus cabelos.

Representatividade importa, valorizar a beleza natural também, nunca esqueçam o quanto seus cabelos são lindos, e nunca mudem se isso não partir de uma vontade genuína de vocês.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.