Ao encontrar um rio de dor, procure as águas de um mar de amor …

Vivemos em um mundo tão caótico e adoecido, que não é difícil encontrar pessoas que não se sentem dignas de amor e de cuidado.

E o que mais dói é saber da onde provém esse sentimento, saber que ele foi construído mediante a experiências de vida que as fizeram ter a certeza que esse lugar de carinho e acolhimento não lhes pertencia.

Em um texto intitulado “Vivendo de amor” Bell Hooks nos traz a perspectiva de como a maioria das mulheres negras sentem que foram amadas pouco ou que nunca foram amadas, e de como a crueldade do processo colonial e do racismo fez com que nós mulheres e também homens negros, tivéssemos que ser fortes, para sobreviver a todas as privações e violências que nos foram dirigidas.

Aimé Césaire em “Discurso sobre o colonialismo”, afirma que o processo colonial embrutece o homem, foi necessário criar sobre nossos corpos sobre nossas subjetividades, uma armadura capaz de sobreviver, primeiramente as chibatadas e depois ao peso de provir de um lugar de tanta dor.

Nossas raízes e nossa ancestralidade nos deram forças para resistir e apesar de toda a tristeza, também sorrir, existem histórias que foram apagadas, existe uma riqueza enorme que muitas vezes é ofuscada pela indignação que sentimos por termos um passado tão difícil e injusto, mas nessa indignação existe beleza, saber que ainda continuamos resistindo mesmo depois de tudo que passamos, nos dá uma dimensão do que conseguiríamos e podemos conseguir depois de superar todas essas enormes barreiras.

Os nossos ancestrais nos deixaram como premissa básica para a sobrevivência a força, pois ao longo da nossa história as marcas do que eles passaram estariam presentes em nossos corpos, nossas cores e em nossa alma.

Era preciso ser forte, era preciso desconfiar, pois por muito tempo nos foi tirado o direito de sermos vulneráveis, e para amar é necessário deixar o outro adentrar a sua vida e o seu espaço, e a força nesse sentido pode ser um empecilho para vivenciar o amor.

O não se deixar amar e ter medo de deixar alguém entrar nas nossas vidas por não conhecer o que é o amor, é apenas uma das consequências, mas o lado mais cruel de nunca ter amado e ter sido amada plenamente, nunca ter sido cuidada e ter tido um relacionamento verdadeiramente saudável, é que os seus padrões e o que você acredita ser ideal para você são construídos em uma base errônea.

Você aceita migalhas, você aceita pouco, pois sempre teve isso, e ter mais parece impossível, afinal você sabe que não pode acreditar nas promessas feitas entre quatro paredes, sabe que no privado é fácil ouvir de alguém que ela quer ficar ao seu lado e que não pretende ir embora tão cedo, mas também sabe que lá fora é bem diferente.

Você não está acostumada com alguém tendo orgulho de pegar na sua mão, você não está acostumada a ser apresentada a família e aos amigos, você não está acostumada a receber flores e presentes, ou até mesmo elogios, vocês está acostumada com encontros reservados, com pessoas que soltam a sua mão quando encontram alguém conhecido, com promessas vazias que se dissipam ao amanhecer.

E de abandono e solidão você entende bem, ao se relacionar com alguém que carrega essas marcas esteja ciente que o processo de se sentir bem ao ponto de acreditar em outra pessoa é duro, pois a nossa vida inteira foi moldada para sermos fortes, pois a vida inteira não tivemos carinho, não tivemos empatia, não tivemos segundas chances, não tivemos o perdão por nossos erros, não tivemos carinho e colo.

Nossas mães e nossos pais em sua maioria também não tiveram e os seus pais e avós e bisavós também não, eles tiveram uma vida de luta para escapar da fome, da miséria e do lugar de servidão, tiveram que lutar pela sua humanidade, pela sua sobrevivência e no meio do caminho o amor foi esquecido, não sobrou espaço para o cuidado.

Amor era sinônimo de fraqueza e de algo que não era para o nosso bico, não havia como pensar em formas de enfrentamento da dor, do sofrimento, pois nem se tinha espaço para se pensar o sofrer, agora que temos a oportunidade de enfim começar a sentir, podemos buscar formas de espalhar amor entre os nossos.

Buscar formas de cuidar da nossa gente que há tanto tempo foi sendo cuidadora, mas que nunca teve espaço para pensar no amor que recebia e no amor que merecia receber.

Se carregamos essa força dos nossos ancestrais, vamos também lembrar do canto, da dança, da alegria, das histórias, dos conhecimentos e ensinamentos e vamos juntos construir um futuro em que possamos amar e ser amados, sem nos preocupar em sermos fracos, sem ter que tanto lutar pela vida.

Quando encontrar um rio de dor procure as águas de um mar de amor e mergulhe. Se deixe acariciar pelas ondas do mar, deixe a ferida sarar e lembre-se da vida que pulsa em você, lembre-se da força, da resistência, da indignação, mas acima de tudo, lembre-se que o amor cura e a capacidade de amar é o que nos une !

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.

Mulher, negra, LGBT // Escrevo sobre amor para aliviar a alma. Escrevo sobre a dor para tentar curá-la. Escrevo sobre a realidade para tentar mudá-la.